Um pé de goiaba nasceu, intruso, entre dois arbustos de flores na cores carmim e lilás. Quis arrancá-lo de lá, mas foi ficando e crescendo, esquecido. Até que desabrochou em goiabas, várias, num verde-amarelo bonito e perfumado. As goiabas levaram-me à infância. Nunca gostei da fruta, preferia as mexericas, as laranjas, as mangas, as amoras, os jamelões que chamava de pitangas. Era o pomar das férias, mas goiaba tinha bicho... As goiabas do meu jardim levaram-me à minha mãe, ainda moça, esticada no sofá, pés descalços balançando. Ela adorava ler e lia Meu Pé de Laranja Lima. Eu não havia desvendado ainda o segredo das letras unidas, mas ouvia dela o conselho para ler aquele livro. Aos poucos, ela foi me ensinando a importância da literatura, das palavras, dos adjetivos. Ela adorava os adjetivos e estimulava que os usasse nas primeiras redações: flores multicoloridas, pétalas aveludadas, melodia encantadora dos pássaros.
Anos mais tarde, tive que engavetar os adjetivos. São completamente dispensáveis em textos jornalísticos. Mas com as crianças admirando as goiabas do meu jardim, não poderia deixá-las cair no chão e apodrecer. Peguei uma escada para alcançar as frutas. Clara, voltava do balé, subiu em outra árvore para acompanhar a novidade. A manhã estava linda e ela balançava tão graciosamente os pezinhos... Bruna ficou em casa bagunçando a sua pilha de livros para achar o Meu Pé de Laranja Lima.
As goiabas foram para a panela. Achei que poderia inventar um doce. Meu marido, que adora goiaba, deu uma mordidona. "Não tem bicho", sentenciou. "O que você vai inventar? Não vá colocar fogo na casa..." Engraçadinho ele, não? Demorou pouco para a casa toda ficar cheirando goiabada. Bruna lia o livro, não gosta de doce. Clara e eu raspamos a panela com colher de pau. Ficou tão bom com queijo-minas! Meu primeiro Romeu e Julieta, graças ao meu pé de goiaba lima.
O que é liberdade? Passei o fim de semana refletindo sobre esse tema,após deixar o cinema com a aula de história sobre Lincoln e a sua luta ideológica pela libertação dos escravos. Congressistas corrompidos para aprovar a emenda constitucional que assegurasse a igualdade entre homens brancos e pretos. Somei as ideias do filme às que havia lido recentemente, a opinião de um amigo sobre o caso da blogueira Yoani Sanchez e o regime de Fidel Castro. Ele discorreu sobre os anos de ditadura que viveu, sobre os colegas universitários torturados, sobre o clima de tensão. Concluiu que nós, brasileiros, ainda vivemos uma democracia pobre, em que não sabemos ouvir e respeitar a opinião dos outros. Sobre isso, não há o que discutir. Mas esse meu amigo confessou a não curiosidade de visitar Cuba, e sua antipatia por um regime antidemocrático. Nesse ponto apresento meus argumentos. Sou da geração pós-ditadura. Felizmente porque se tivesse vivido os anos de chumbo seria grande a chance de não estar aqui para expor a minha opinião. Ao contrário do meu amigo, eu gostaria, sim, de conhecer Cuba e, quem me dera, o próprio Fidel. Não sou tiete dele, aviso logo, mas numa conversa poderia expressar o que acho de toda essa história. A luta de Fidel é invejável. Ele não deixou o seu país e o seu povo se curvarem ao poderio norte-americano. O embargo econômico e o isolamento da ilha levaram o povo cubano a dar exemplos de superação para o resto do mundo: na educação, na saúde, no balé. Sim, os bailarinos cubanos são excelentes. O cineasta Michael Moore, o mesmo do famoso documentário Tiros em Columbine, visitou Cuba com sua equipe e oito doentes graves dos EUA com dificuldades em conseguir autorização dos planos de saúde para sobreviver a doenças, inclusive o câncer. Em Cuba conseguiram ser medicados. Os pacientes norte-americanos se surpreenderam com os preços acessíveis dos medicamentos, do tratamento de qualidade e disponível a todos, realidade muito distante dos Estados Unidos, onde o capitalismo é puramente voraz. Como seria a história de Cuba se a revolução de Fidel tivesse fracassado? Mais um país caribenho assolado pelas precariedades sociais? Uma República Dominicana, onde as crianças jogam beisebol nas praças públicas, há McDonald's em cada esquina, uma população pobre em contraste com os resorts de luxo e as mansões construídas por astros hollywoodianos em meio à natureza exuberante que fez Cristóvão Colombo acreditar ter chegado ao paraíso? Que liberdade os dominicanos têm? São reféns da dominação. Não são exemplos para o mundo. Se eu pudesse entrevistar Fidel Castro, faria uma reverência, em respeito ao seu idealismo. Embora, tão assim como o de Lincoln, ter sido mantido à custa de mortes e sacrifícios. Mas foi puro, nasceu do peito, da bravura. Como não admirar essas histórias? Infelizmente, quase sempre é doloroso demais mudar o rumo da história. Depois da reverência, faria a primeira pergunta: - Comandante, o mundo é outro, globalizado. E os Estados Unidos não são mais os donos do mundo. Os "americanos" sofrem com desemprego, pedem esmola aos turistas. Não seria a hora de Cuba dar outro exemplo histórico ao mundo? O senhor não gostaria de entrar para a história novamente decretando a democracia em Cuba? O senhor seria como o Lincoln...
As lágrimas nasciam incessantemente dos olhos já inchados e iam morrer no chão em que pisava pela primeira vez. Uma tristeza imensa fazia o coração murchar e ela insistia em caminhar sem reparar nas casas simpáticas, algumas construídas de madeira, dois pavimentos, jardins à porta, num convite cheiroso. Pareciam desabitadas. Os moradores deviam ainda estar dormindo naquela manhã gelada de domingo.
Só então ela reparou que havia quase ninguém na rua. Para aonde iria? Estava com fome, mas a vergonha das lágrimas não a deixava entrar e sentar-se num daqueles cafés, saciar-se com capuccino fumegante e um croissant com cream cheese. Avistou com os olhos embaçados a torre de uma igreja. Talvez encontrasse conforto ali, embora a vontade fosse de sentar-se num cantinho da rua, achar-se escondida à vista de todos, como os mendigos que carregam tão bem a sua dor, e chorar tudo de uma vez.
Queria um colo de mãe, mas lembrou-se que nunca o tivera seguro. A mãe também precisava de colo. Estava tão sozinha, a dor já extrapolava o corpo e espalhava-se pela vizinhança. Olhou o horizonte, havia a torre da igreja. Sabia apenas que devia seguir naquela direção. As torres serviam como oriente aos perdidos como ela.
A dor impedia o cansaço. Ela havia andado e andado, mas quanto? Em frente à porta da igreja havia uma praça, parecia aos poucos sendo preenchida por quadros de artistas locais. Uma rotina que parece se repetir em cidades de todo o mundo. Por um segundo apenas, ela se esqueceu das lágrimas.
Mas a tristeza latejava no peito, era maior que a alma naquele instante, e ela entrou na igreja. Encolheu-se no último banco de madeira, olhou para o alto, buscou Deus. Não achou. Encontrou Nossa Senhora com as mãos delicadas a proteger o coração. Um sacerdote oriental com túnica vermelha olhou para os olhos marejados da nova fiel, que não tinha desenho puxado, e afastou-se sem dizer nada. Ela havia assustado-o com a sua dor.
Antes, um pouco antes,um outro oriental havia entregado-lhe, sorrindo, um folheto. Aquele ato de amor ínfimo, gratuito, irrigou-lhe a fonte de lágrimas que já não eram pingos constantes, mas um riacho fino traçado na face. Ela tinha agora nas mãos um folheto de cânticos em desenhos bonitos da língua chinesa. Como pode, um povo desenhar poesia em cada letra? Dois textos apenas tinham tradução para o inglês, mas não tinham sentido algum.
Ela deixou-se ali por algum tempo. Tentou achar a felicidade, mas eles eram tão distantes... Estavam todos lá na frente, na igreja grande demais, e as orações não chegavam até ela. Era melhor deixá-los na sua paz.Ela só destoava. Olhou para trás, a porta da igreja havia sido fechada. Onde era a saída?
Dirigiu-se para lá, um oriental na porta não entendia o seu inglês. Só sorria, mãos postas, um sorriso tranquilo. Ela insistiu. Precisava sair da igreja e queria saber qual era a porta. Ele então entendeu, abriu a porta, curvou-se para ela, reverenciando-a. Homem mais simpático, pensou.
A manhã não tinha sol e nem vento, o movimento na praça dos artistas ainda era fraco. Uma pessoa passeava com o seu cachorro, outra lia jornal na praça, uma das mãos ocupadas por um copo com bebida ainda quente. Ela decidiu ver as telas. Diante da primeira, uma mensagem de Buddha explicava o trabalho da artista: "Peace comes from within. Do not seek it without". Ela acalmou o coração, levou as mãos ao rosto para enxugar as últimas lágrimas e retomou o caminho. Já poderia voltar. Encontrara a paz.
Que barulho é mais insuportável que o zumbido insistente de um pernilongo ao pé do nosso ouvido? Basta a gente encostar as ideias na maciez de um travesseiro com cheirinho de lavanda, que lá vem o inseto mais chato do mundo.
Nem as nojentas baratas nos incomodam tanto... Ficam lá no esgoto e vez ou outra dão o ar do desencanto. Mas o pernilongo, não, esse aparece todas as noites e, para piorar, nunca está só. Chega em grupo para a festa, esquadrilha rasante. Entram como penetras na nossa casa, e ficam lá bailando e cantando na mesma toada a musiquinha irritante.
Faz três dias que não durmo por conta da algazarra. Não bastasse esse calor do Saara, tenho agora que consolar o choro doloroso da menininha de oito anos, que tem medo desses insetos. Ela acorda no meio da noite e sai acendendo todas as luzes da casa. Para não incomodar, ela diz que vai ficar acordada vendo TV. Como assim? Ao confessar o medo, aconcheguei-a na minha cama. Ouvi um "obrigada por você existir" e me derreti como a mãe mais boba do mundo.
Na noite seguinte, a mesma cena, um replay. Quis saber por que tanto medo de pernilongo? Ela recontou então a história da antiga babá, do pernilongo que entrou no ouvido da moça e ficava lá dentro num eterno zumbido. A criança impressionou-se, virou trauma.
- Mãe, veja dentro do meu ouvido. Acho que tem um pernilongo morando aqui dentro. Ouço o zumbido! Você me leva ao médico?
Que fazer? Enchi a casa de citronela porque não achei mais o repelente elétrico. Brasília deve estar infestada de pernilongos. E qual é a outra solução dos especialistas?
Fui pesquisar no nosso santo Google.Passar um tempo caçando os insetos? Que nojo! Colocar tela nas janelas? Pronto, vou viver numa casa de segurança máxima contra os zumbidores. Uma perfeita alcatraz. Não, definitivamente, não mesmo. Não sou Al Capone. Preciso de ar, de enxergar lá fora o horizonte.
Instalar um cortinado sobre a cama da menininha? Como se faz em berços? Imagina se isso vai dar certo... Além de feio, aposto que vai virar uma espécie de cipó em dia de visita das amigas. Elas já se dependuram nas cortinas imitando Tarzan. Quer saber? Vou pesquisar no Inmet quando vai chover no Planalto Central. Chuva espanta pernilongo, certo? O problema é que eles nunca acertam na previsão do tempo. E as videntes da W3 Sul? Será que elas enxergam alguma solução?