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À espera do trono

Diante dessa discussão toda em torno do 14º e do 15º salários dos congressistas, não sairia mais barato para nós, contribuintes, sustentar os luxos da monarquia Orleans e Bragança? Pelo menos teríamos glamour  real, uma corte de verdade nos nossos palácios, e mais turistas interessados em visitar Brasília. 


Adendo: Mesmo com a mordomia derrubada, há tanto dinheiro circulando por ali que político nenhum quer largar o osso!

Benevolência. Até quando?

Foto: Klaus Obermaier/Ars Electronica Futurelab

Às vezes, não dá vontade de escrever nada. É uma zanga com o mundo. Ver pessoas revirando lixo para saciar a fome incomoda e esqueci o radar. Mais uma multa. Escrever sobre o quê? De novo, as mazelas sociais... O importante não parece ser o aniversário do Neymar? Ando em desencanto.

Mas hoje o dia é de luz. A renúncia do Papa Bento 16 traz esperança. É um ato de coragem. Leva os fieis à reflexão. Pelo menos seria bom que levasse. Quem no cansaço da sabedoria não faria o mesmo diante de uma igreja perdida em erros imperdoáveis, onde os casos de pedofilia são apenas os mais recentes? Sensatez a sua saída. Que sejam-lhe dadas a paz e a solidão necessárias para pedir perdão pelos desumanos deste mundo. Que a fé dos homens seja intermediada por instituições mais sagradas. 

Fé em Deus, fé nos homens. Às vezes, a descrença parece envolver-nos. Em tanto tempo de evolução, a humanidade ainda resiste à inovação. Estranha, reclama, não aceita. A Igreja Católica precisa aceitar o novo mundo, a realidade. Impõe regras bobas, ultrapassadas, que nem mesmo o mais fiel carochinha consegue cumprir à risca. 

Estamos em 2013, século 21. Faz cem anos que a encenação de um ritual pagão no qual uma jovem dança até a morte foi vaiada no centro cultural do mundo. É a intolerância ao novo, à inovação. É assim em cada faceta humana: nas artes, na religião, na vida social. A Sagração da Primavera, música de Stravinsky, coreografia de Nijinsky, figurinos e cenário de Roerich, não foram compreendidos na sua ousadia coletiva. 

A composição para o balé encenado em Paris, incompreendida pela sociedade refinada, marca o início da música moderna. Em 1940, a Disney homenageia o compositor russo e cria o longa Fantasia. A música com todas as suas dissonâncias - reconhecidas anos mais tarde pelos críticos eruditos como mais que perfeitas - cobre um mundo primitivo, uma Terra que ainda se acomoda. 

 
No balé, a história é a de uma menina oferecida ao "Deus da Primavera" em troca de benevolência. Que a renúncia do Papa, que inquieta fiéis, surta o mesmo efeito. A humanidade precisa ainda de benevolência? Precisamos ter mais fé em nós mesmos. 

Dica: O filme Coco Chanel e Igor Stravinsky, 
de Jan Kounen (2009), reproduz a reação 
do público à Sagração da Primavera. 



Meu pé de goiaba lima



Um pé de goiaba nasceu, intruso, entre dois arbustos de flores na cores carmim e lilás. Quis arrancá-lo de lá, mas foi ficando e crescendo, esquecido. Até que desabrochou em goiabas, várias, num verde-amarelo bonito e perfumado. As goiabas levaram-me à infância. Nunca gostei da fruta, preferia as mexericas, as laranjas, as mangas, as amoras, os jamelões que chamava de pitangas. Era o pomar das férias, mas goiaba tinha bicho... 

As goiabas do meu jardim levaram-me à minha mãe, ainda moça, esticada no sofá, pés descalços balançando. Ela adorava ler e lia Meu Pé de Laranja Lima. Eu não havia desvendado ainda o segredo das letras unidas, mas ouvia dela o conselho para ler aquele livro. Aos poucos, ela foi me ensinando a importância da literatura, das palavras, dos adjetivos. Ela adorava os adjetivos e estimulava que os usasse nas primeiras redações: flores multicoloridas, pétalas aveludadas, melodia encantadora dos pássaros.

Anos mais tarde, tive que engavetar os adjetivos. São completamente dispensáveis em textos jornalísticos. Mas com as crianças admirando as goiabas do meu jardim, não poderia deixá-las cair no chão e apodrecer. Peguei uma escada para alcançar as frutas. Clara, voltava do balé, subiu em outra árvore para acompanhar a novidade. A manhã estava linda e ela balançava tão graciosamente os pezinhos...  Bruna ficou em casa bagunçando a sua pilha de livros para achar o Meu Pé de Laranja Lima.

 As goiabas foram para a panela. Achei que poderia inventar um doce. Meu marido, que adora goiaba, deu uma mordidona. "Não tem bicho", sentenciou. "O que você vai inventar? Não vá colocar fogo na casa..." Engraçadinho ele, não? 
Demorou pouco para a casa toda ficar cheirando goiabada. Bruna lia o livro, não gosta de doce. Clara e eu raspamos a panela com colher de pau. Ficou tão bom com queijo-minas! Meu primeiro Romeu e Julieta, graças ao meu pé de goiaba lima.

O Lincoln de Cuba

Imagem do Google
O que é liberdade? Passei o fim de semana refletindo sobre esse tema,após deixar o cinema com a aula de história sobre Lincoln e a sua luta ideológica pela libertação dos escravos. Congressistas corrompidos para aprovar a emenda constitucional que assegurasse a igualdade entre homens brancos e pretos. 

Somei as ideias do filme às que havia lido recentemente, a opinião de um amigo sobre o caso da blogueira Yoani Sanchez e o regime de Fidel Castro. Ele discorreu sobre os anos de ditadura que viveu, sobre os colegas universitários torturados, sobre o clima de tensão. Concluiu que nós, brasileiros, ainda vivemos uma democracia pobre, em que não sabemos ouvir e respeitar a opinião dos outros. Sobre isso, não há o que discutir. 

Mas esse meu amigo confessou a não curiosidade de visitar Cuba, e sua antipatia por um regime antidemocrático. Nesse ponto apresento meus argumentos. Sou da geração pós-ditadura. Felizmente porque se tivesse vivido os anos de chumbo seria grande a chance de não estar aqui para expor a minha opinião. 

Ao contrário do meu amigo, eu gostaria, sim, de conhecer Cuba e, quem me dera, o próprio Fidel. Não sou tiete dele, aviso logo, mas numa conversa poderia expressar o que acho de toda essa história. A luta de Fidel é invejável. Ele não deixou o seu país e o seu povo se curvarem ao poderio norte-americano. O embargo econômico e o isolamento da ilha levaram o povo cubano a dar exemplos de superação para o resto do mundo: na educação, na saúde, no balé. Sim, os bailarinos cubanos são excelentes.

O cineasta Michael Moore, o mesmo do famoso documentário Tiros em Columbine, visitou Cuba com sua equipe e oito doentes graves dos EUA com dificuldades em conseguir autorização dos planos de saúde para sobreviver a doenças, inclusive o câncer. Em Cuba conseguiram ser medicados. Os pacientes norte-americanos se surpreenderam com os preços acessíveis dos medicamentos, do tratamento de qualidade e disponível a todos, realidade muito distante dos Estados Unidos, onde o capitalismo é puramente voraz. 

Como seria a história de Cuba se a revolução de Fidel tivesse fracassado? Mais um país caribenho assolado pelas precariedades sociais? Uma República Dominicana, onde as crianças jogam beisebol nas praças públicas, há McDonald's em cada esquina, uma população pobre em contraste com os resorts de luxo e as mansões construídas por astros hollywoodianos em meio à natureza exuberante que fez Cristóvão Colombo acreditar ter chegado ao paraíso? 

Que liberdade os dominicanos têm? São reféns da dominação. Não são exemplos para o mundo. Se eu pudesse entrevistar Fidel Castro, faria uma reverência, em respeito ao seu idealismo. Embora, tão assim como o de Lincoln, ter sido mantido à custa de mortes e sacrifícios. Mas foi puro, nasceu do peito, da bravura. Como não admirar essas histórias? Infelizmente, quase sempre é doloroso demais mudar o rumo da história.
Depois da reverência, faria a primeira pergunta:

- Comandante, o mundo é outro, globalizado. E os Estados Unidos não são mais os donos do mundo. Os "americanos" sofrem com desemprego, pedem esmola aos turistas. Não seria a hora de Cuba dar outro exemplo histórico ao mundo? O senhor não gostaria de entrar para a história novamente decretando a democracia em Cuba? O senhor seria como o Lincoln...