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Reencontro




Imagem do Google
"A solidão vira este bem precioso, o escudo quase infalível para livrar-se das intromissões humanas." 


(Paulo Renato Souza Cunha, 
em Cartas para o Espaço e 
outros Contos Surreais)


Quem diria que seria por meio de "cartas para o espaço" que me voltaria à memória uma conversa há quatro anos. Meio criança e de cabelos loiros lembra um pequeno príncipe russo. Ele foi forçado a ser meu amigo. Teve o azar de sentar-se ao meu lado na redação do jornal. Como acho sempre um assunto para conversar, ele tinha pouco tempo para escrever. 

Assim, talvez, tenha lhe incentivado a produzir no pouco tempo livre ao meu lado. Eu amava esse tempo ao lado dele. Era um jovem inteligente, que lia muito, curioso, educado, de futuro. Eu falava das minhas filhas e ele dos pais médicos, que amava tanto e que também sempre tiveram pouco tempo para oferecer aos filhos. Ouvir isso, para quem costumava ficar até 14 horas numa redação, era reconfortante. 


"Prefiro a catacrese dos papéis. Acho que me dou melhor com celuloses. Isso pode soar racional àqueles que seguram ferramentas cortantes e curam doenças. Eu me criei doenças."


Um dia, ele quis um conselho. Estava indeciso porque como estudava russo tinha a oportunidade de ganhar uma bolsa para se aperfeiçoar na Rússia. A dúvida é que se fosse perderia a chance de se contratado pelo jornal. Ele era ainda um estagiário. Não tive a menor dúvida:

- Mas você não tem o que decidir. Você tem que ir. 

"Fico longe, chateado com a existência e preciso das clausuras prolongadas a fim de encontrar qualquer pretexto para continuar respirando atmosfera. Sinto muito se choramos abraçados, juro que não foi por mal."

Na volta de Paulo Renato, eu já não estava mais naquela redação. Ao partir, o seu lugar foi ocupado por uma menina, que escrevia e patinava. Era talentosa nos dois ofícios. Também teve de aprender a escrever nas minhas pausas. Em pouco tempo éramos amigas. Achavam que era a minha irmã mais nova, a irmã que nunca tive. 

Quem sabe se tivesse tido uma irmã, teria conversado mais na infância e não falasse tanto depois. No meu tempo de menina preenchia o tempo livre lendo ou conversando comigo mesma. Gravava em fita cassete (alguém lembra ou sabe o que é?) várias perguntas e depois respondia. Bom, acho que tinha mesmo de ser jornalista, não?

"...gosto de ficar olhando as pessoas correndo lá embaixo. Elas têm muita pressa. Mas eu quase não tenho pressa. Quase não gosto de estar com as pessoas que têm pressa."

Mas voltando ao meu amigo. Um dia desses, trocamos palavras por e-mail. Ele então falou que havia publicado um livro de contos. Enviou-me um no endereço que tive de passar duas vezes. Cinco minutos depois de anotar pela primeira vez, perdeu o papel. Eu sei bem como é isso. A mente sempre em ebulição. 

O livro começou com as anotações de diário durante viagens com a família e termina com as experiências solitárias no mundo dos russos. Só lamento ter ficado com vontade de ler mais. São apenas 49 páginas. Haverá outros para me calar. 

"Entendo que a morte aparece quando a obscuridade, enfim, se instala. Isso não me perturba. Só não venham me matar em vida."


(*)Homenagem ao meu querido amigo, o pequeno príncipe russo Paulo Renato

O voo do Pequeno Príncipe

Foto do Tumblr
Ele veio de paletó azul brilhante e aqueles cabelos loiros lembraram-me de que o Pequeno Príncipe havia envelhecido. Cantou suas histórias, seu romantismo atrás de um óculos de armação azul. A cada história contada, deixava o piano, sorria, erguia o braço direito e curvava-se diante do público que teve de se virar para descobrir o local da nova casa de espetáculo em Brasília, inaugurada antes mesmo de estar cem por cento pronta. Mas, no fim, deu tudo certo. 

Elton John surgiu, como por encanto, no horário britânico e presenteou a plateia com um profissionalismo admirável. Cantou por duas horas e meia, sem intervalo, poucos goles de água para acalmar a garganta. Não reclamou do calor, não tirou o paletó do Pequeno Príncipe. 

Há dois anos, apesar da minha frescura por multidão, gente pisando no meu pé, aventurei-me no Rock in Rio. Queria apenas assistir ao show do Elton John. Difícil chegar à Cidade do Rock, Rio de Janeiro engarrafado. Para piorar, ele seria o último a se apresentar. Teria antes de aguentar Cláudia Leite e Katy Perry. Meu marido não resistiu. A cabeça explodia. 

Assisti ao show na tevê do hotel sem reclamar, mas arrasada. Ouvir um "Você não vai morrer sem assistir a um show dele.Te levo em Londres, se for preciso". Na última sexta-feira, veio a recompensa. Sem dor de cabeça, sem ninguém pisar no meu pé. 

Com essa história toda, lembrei de um amigo, fã do Bono Vox do U2. Assim que soube que a banda viria a Brasília, entrou para um cursinho de inglês, ensaiou as perguntas e convenceu o editor de que poderia entrevistá-lo. Conseguiu. Levou debaixo do braço um velho disco de vinil. Saiu de lá extasiado com a assinatura do ídolo. 

Outro amigo rastreou os raros shows de Leonard Cohen pela Europa e arrastou a mulher. Voltou de lá com alegria tão contagiante, disposto a repetir a dose no próximo ano. E repetiu seu sonho. E vocês também têm uma história de show para contar?




Palavras do lixo

Emmanuellewalker/tumblr
Nem tudo que escrevo, publico. É bom escrever para nós mesmos. Guardar para ler depois ou não guardar, mas embolar o papel e atirar na lixeira. E daí?  Hoje fiz isso novamente, mas por segundos senti pena das palavras amassadas. Resgatei o papel, desamarrotei-o com as mãos. 

Na lixeira ainda ficaram os papéis do barulhinho gostoso dos dois Sonhos de Valsa que me deram no Dia Internacional da Mulher. Fico pensando se isso é coisa de homem mesmo. Querem nos ver gordas? Não compro bombom, mas se me dão, eu vou comer como criança, ou seja, bem devagarinho que é para durar mais. 

Mas tudo bem, nada que uma boa corrida não dê jeito. Afinal não somos o sexo frágil, como canta o Erasmo. E nem podemos ser. Quem é que vai segurar nossas pontas. Os homens? Eles têm o jogo de futebol, esqueceram? E as crianças têm dever de casa.

E ainda há homens que batem em mulheres? Homens são mais fortes. Não é preciso medir força porque vão ganhar sempre essa queda de braço. Parabéns pelo seu dia! A gente ouve isso o dia todo, mas no dia seguinte vai ter um louco no trânsito chamando-nos de barbeiras ou gostosas. Será que ele não viu que trocou de faixa sem dar a seta? Queremos flores e versos, mas precisamos de respeito. 

Esse dia é uma grande bobagem. Virou data comercial, ninguém reflete sobre a luta pela igualdade de direitos, pela não violência. Já ouvi até mulher reclamando das feministas que queimaram os sutiãs. Alegam que todas nós poderíamos estar agora em casa, cuidando dos filhos, sem o estresse da dupla jornada. Melhor nem discutir.

Será que antes da luta dessas corajosas mulheres, a dedicação exclusiva das que só tinham a opção de ficar em casa era valorizada? Não era nem opção. Era obrigação. E há mulheres que não valorizam essas conquistas nos dias de hoje?


Somos românticas, sim, acreditamos sempre no final feliz. Se ele acontece, choramos. Se não acontece, choramos também. E daí? Há algo errado nisso? Gastamos dinheiro com bobagens, sapatos demais. Isso é verdade, mas não somos perfeitas. Somos mulheres. Ah, o papel... as palavras amassadas. Quer saber? Estou embolando de novo para atirar na lixeira...






Um ótimo fim de semana!


Olhos bem abertos



Foto: Rovênia Amorim
Continue sentado aí. A história que vou contar leva apenas dois  minutos e 42 segundos. Eu cronometrei. Comprei duas mudas de uma planta com flores brancas perfumadas e que não faço ideia do nome. O jardineiro veio e pedi que escolhesse dois lugares de destaque para as novas aquisições. Antes da meia-noite, lembrei-me de que não havia chovido e minhas novas flores deveriam estar morrendo de sede. Lá fui para o jardim na missão de salvá-las. 

- O que esse edredon está fazendo aí, perto da piscina?
Era o Beto, o marido 007 nessa história. 

- Não faço a menor ideia. Deve ser coisa do esquecimento da Maria. Ela sempre apronta. 

Ele veio atrás, incomodado com o edredon. Será que alguém entrou na piscina e usou o edredon para se enxugar? 

- Não sei. Será? Bom, depois a gente pergunta para a Maria.

Na volta para a casa, ela estava lá, dona do varal na área de serviço. 

- Você vai entrar? Ela é caçadora e pode te dar uma bicada. 

- Então não vou. Vamos nos sentar aqui na grama, olhar as estrelas e esperar. Ela vai embora...

Mas não foi. Ficava lá, olhando para nós e nós para ela. Nem reparamos nas estrelas. Era melhor dar um jeito. Beto 007 teve a ideia de pegar um banco, desses tipo tamborete, para passar e se defender da coruja. Isso mesmo, havia uma coruja no varal. 

- Se ela vier, eu a espanto com o banco. 

- Como assim? Você vai machucá-la! Melhor não. 

O melhor era pensar como o MacGyver. Ele sempre tinha uma solução para tudo. Falei da minha ideia genial:

- Vamos acordar as meninas. Batemos na janela, elas abrem e nós pulamos para entrar. 

Não foi fácil executar a minha ideia de gênio. Elas têm sono de pedra. Enfim, uma acordou:

- O que vocês estão fazendo aí de fora? 

- Depois explico. Você pode abrir a janela para a gente entrar?

Coitadinha, com sono, ela cumpriu com excelência a missão. E quem disse que eu conseguia pular a janela? Precisei de uma ajuda básica, aquele calço feito com as mãos do Beto 007. Deu certo, eu entrei. Subi em disparada pela escada que dá acesso ao meu quarto. Precisava da máquina para fotografar a coruja. Equipamento nas mãos, materializei-me na cozinha. Abri um pouco a janela, o Beto 007 atrás de mim:

- Você vai disparar o flash? Ela pode levar um susto e te atacar! 

- Será? Ah, mas quero muito fazer essa foto... Vou arriscar.
Três flashes e a coruja virou a cabeça, encarou-me. Fechei a janela rapidamente. 

- Está tudo explicado. 

- O que está explicado?

- O edredon. A coruja carregou o edredon porque queria ficar com o varal só para ela ou então planejava construir um ninho...

- Não viaja 007. Ela jamais ia conseguir carregar um edredon!

- Claro que sim. Elas são caçadoras, carregam as presas com as garras. Não é com o bico, não...

- Ainda não acredito. Acho que foi esquecimento da Maria. Amanhã pergunto.

Enquanto isso a Clara estava lá, olhos espantados, bem abertos, como os da coruja do varal, sem entender nada de nada. Por que vocês precisaram me acordar no meio da madrugada e pular a janela?