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"A solidão vira este bem precioso, o escudo quase infalível para livrar-se das intromissões humanas."
(Paulo Renato Souza Cunha,
em Cartas para o Espaço e
outros Contos Surreais)
Assim, talvez, tenha lhe incentivado a produzir no pouco tempo livre ao meu lado. Eu amava esse tempo ao lado dele. Era um jovem inteligente, que lia muito, curioso, educado, de futuro. Eu falava das minhas filhas e ele dos pais médicos, que amava tanto e que também sempre tiveram pouco tempo para oferecer aos filhos. Ouvir isso, para quem costumava ficar até 14 horas numa redação, era reconfortante.
"Prefiro a catacrese dos papéis. Acho que me dou melhor com celuloses. Isso pode soar racional àqueles que seguram ferramentas cortantes e curam doenças. Eu me criei doenças."
Um dia, ele quis um conselho. Estava indeciso porque como estudava russo tinha a oportunidade de ganhar uma bolsa para se aperfeiçoar na Rússia. A dúvida é que se fosse perderia a chance de se contratado pelo jornal. Ele era ainda um estagiário. Não tive a menor dúvida:
- Mas você não tem o que decidir. Você tem que ir.
"Fico longe, chateado com a existência e preciso das clausuras prolongadas a fim de encontrar qualquer pretexto para continuar respirando atmosfera. Sinto muito se choramos abraçados, juro que não foi por mal."
Na volta de Paulo Renato, eu já não estava mais naquela redação. Ao partir, o seu lugar foi ocupado por uma menina, que escrevia e patinava. Era talentosa nos dois ofícios. Também teve de aprender a escrever nas minhas pausas. Em pouco tempo éramos amigas. Achavam que era a minha irmã mais nova, a irmã que nunca tive.
Quem sabe se tivesse tido uma irmã, teria conversado mais na infância e não falasse tanto depois. No meu tempo de menina preenchia o tempo livre lendo ou conversando comigo mesma. Gravava em fita cassete (alguém lembra ou sabe o que é?) várias perguntas e depois respondia. Bom, acho que tinha mesmo de ser jornalista, não?
"...gosto de ficar olhando as pessoas correndo lá embaixo. Elas têm muita pressa. Mas eu quase não tenho pressa. Quase não gosto de estar com as pessoas que têm pressa."
Mas voltando ao meu amigo. Um dia desses, trocamos palavras por e-mail. Ele então falou que havia publicado um livro de contos. Enviou-me um no endereço que tive de passar duas vezes. Cinco minutos depois de anotar pela primeira vez, perdeu o papel. Eu sei bem como é isso. A mente sempre em ebulição.
O livro começou com as anotações de diário durante viagens com a família e termina com as experiências solitárias no mundo dos russos. Só lamento ter ficado com vontade de ler mais. São apenas 49 páginas. Haverá outros para me calar.
O livro começou com as anotações de diário durante viagens com a família e termina com as experiências solitárias no mundo dos russos. Só lamento ter ficado com vontade de ler mais. São apenas 49 páginas. Haverá outros para me calar.
"Entendo que a morte aparece quando a obscuridade, enfim, se instala. Isso não me perturba. Só não venham me matar em vida."
(*)Homenagem ao meu querido amigo, o pequeno príncipe russo Paulo Renato


