Sensação mais estranha. Você entra tanto dentro da história, que se deixa confundir com o narrador-personagem. Sente-se como se já tivesse vivido aquelas páginas escritas. Maravilha-se.
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Fecha então o livro, ainda meio atordoado. Sem querer, vê a manchete do jornal atirado ao chão. Arrepia-se com a notícia das milhares de crianças mortas. Abre apressadamente o livro apoiado no peito e volta a ler um mundo melhor, um mundo de paz.
Há tantos escritores geniais que inventam palavras. Sem elas, seus textos seriam incompletos. Mas o que gosto mesmo é de ir passeando pela vida, pelas páginas, pelas lembranças quase esquecidas e ir colhendo palavras. Algumas escritas já não se falam mais e outras são faladas por poucos. Quando esbarro nessas que resistem à extinção, juro, minha alma sorri. Se eu pudesse, esqueceria minha timidez e tiraria-as para dançar. Numas páginas que ainda viro, conheci o menino que fazia gaiolas de passarinhos para juntar uns "cobres". Lá em Minas, onde ele passou a infância, colhia-se diamante, mas dinheiro tinha valor de cobre e a doçura dos doces feitos em tachos. Ainda hoje, em algumas cidades mineiras, moedas são apelidadas carinhosamente de "pratinhas": - Pegue as pratinhas, minha filha, e vá comprar pão! Não é lindo essa mania de mineiro utilizar o diminutivo? A pratinha é palavra tão gostosa de ouvir quanto sentir o cheiro do pão de queijo quentinho. Então como não lembrar do tempo dos mais velhos, que guardavam seus "tostões" ou escondiam seus "dobrões de ouro", que eram feitos de ouro de verdade?! Rendiam histórias nas noites sem luz. Desconfio que vem daí o caldeirão cheio de moedas de ouro enterrado bem onde nasce o arco-íris. Que engraçado a gente esquecer que a palavra já valeu cobre, prata e ouro. Então, em dias de chuva, a preguiça me faz abrir um livro. Lá fora, deixo os baldes abertos ao céu só mesmo para ouvir os pingos das novas palavras colhidas.
É possível chover no molhado, mas costurar um rendado no clichê. Elogiável a mistura que Guillermo del Toro fez em O Labirinto do Fauno. Ele conseguiu unir história, magia e fantasia num enredo gostoso, embalado por uma bela trilha sonora. As informações embutidas no filme nos obrigam a ler mais sobre a guerra civil espanhola (1936-1939)e revirar a mitologia atrás de saber sobre fauno e mandrágora - essa raiz de planta, aliás, aparece também na saga Harry Potter. E, assim, o diretor constrói um roteiro que mistura o pagão e o cristão: "Dizem que num mundo subterrâneo onde não há dor nem mentira, vivia uma princesa que sonhava com o mundo dos humanos, com o céu azul, a brisa suave e o sol brilhante..." Mas, no mundo dos homens, a menina Ofélia conheceu as maravilhas do país de Alice nos livros e a crueldade da guerra nas palavras do seu padastro, o capitão fascista: "Essa gente parte de uma ideia equivocada: de que somos todos iguais. Mas há uma grande diferença. A guerra acabou e nós ganhamos. E se para ficarmos em paz temos de matar esses bastardos (camponeses), nós os mataremos!"
Ao voltar para o submundo, a menina ganha a vida eterna, senta-se ao lado do verdadeiro pai. O fauno, com aparência diabólica, está lá. E, no fundo, a cruz aparece nítida num vitral como nas igrejas católicas. Deus e o diabo na terra sem sol. O submundo guarda o paraíso. A inversão reina e sobram as nossas crendices reais e a passagem do divino neste nosso mundo de luz.