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Hora H


Arquivo Pessoal

Qual o problema de ser omem sem h? Também posso ser muler sem h. Quanta bobagem a gente sonha, não é mesmo? Então imagino das tantas vezes que o hipopótamo teve seu nome escrito de maneira errada nos ditados escolares. Qual o problema de ser ipopótamo? Não é à toa que afunde a cabeça na água para refrescar as ideias. Menos bicho não será!  

Então veio-me o desejo de ser traça de livro só para comer os agás. Quantas poesias e conhecimentos esses "dentes do tempo" não traçaram comendo todas as letras, indiscriminadamente. Eu não prejudicaria tanto a umanidade (oops, sumiu o h!). Seria uma traça apreciadora de hs. Somente eles interessam neste meu sonho. 

Mas não sou traça, nem omem, nem ipópotamo e muito menos muler. Vários entre vários meninos que conheço querem ser piloto de um helicóptero. Mas, assim que aprendem como é difícil escrever he - li - cóp- te- ro, desistem da profissão. 

Então passam a ser poetas de avião ou a paquerar a vida mais fácil de as-tro-nau-ta. Não tem o h para atrapalhar. Digo-lhes que gostoso mesmo é sonhar com montes e buracos de halegria. Ooops, de novo escorrego na letra. É alegria! Viram a confusão? 

Quanta bobagem a gente sonha, não é mesmo? A chuva é que me acordou agora com seus agás bem gagás brincando de pular e escorregar pela minha janela. Encantada com a brincadeira da chuva, lembrei-me que no meio do sono teve um pedaço de pesadelo: uma amiga está chateada porque tem goteira no meio da sala. Um balde incolor apara as gotas e estraga a decoração. 

Então tive a ideia de que o h pode ter lá a serventia de evitar tantas tristezas. E o que tem tudo isso a ver com a chuva que enegrece o céu azul e faz nascer as goteiras no teto da sala? 

Presta atenção que está bem na hora h de não se afogar mais. Aberto, colorido e alegre, o guarda-chuva ficará à vontade na sala, enquanto as visitas brincam de inteligência com as letras. O W, por exemplo, é uma graça em dobro... 




(*) Letras de alegria no fim de semana de vocês e na próxima semana. Volto dia 14.


Bambuzal

Imagem: Pinterest

O bambuzal guarda o dia
e a saudade do brejo
onde havia água fresca 
e o sapo que se escondia

O bambuzal dança na noite
Já cai o cheiro de chuva
que acalma e leva embora
o sapo, o sapo que tremia

Guerra dos sexos

Ilustração: Kristi Malakoff

As escolas mistas ganharam fôlego na nossa sociedade contemporânea após a luta contra a segregação racial. Recentemente, no entanto, a educação separatista para os dois sexos é uma tendência nos Estados Unidos e na França. 


Pesquisadores afirmam que meninas e meninos aprendem de forma diferente e, por consequência, as escolas mistas afetariam negativamente no processo de aprendizagem para ambos. 

A questão é saber se a escola não mista está mais apta a formar profissionais e cidadãos que trabalharão e viverão nessa nossa sociedade mista. 

Penso em retrocesso. Se os mecanismos biológicos de aprendizagem são diferentes em homens e mulheres, a escola do século XXI deveria colaborar para a construção coletiva e cooperativa do saber. 

E você, o que pensa a respeito?

Sentidos


Vila do Reino/Versailles/Arquivo Pessoal
Apressam-se e perdem o tempo. Por pura bobagem não enxergam, não ouvem, não pensam, não avançam. Queria que vendessem tamanquinhos da cor do sol só para que ouvissem a alegria da menina no seu toc-toc pra lá e pra cá. 

Por que não se sentam aqui ou ali para descansar as dores e olhar, só por olhar, os trapos humanos?  Há muito venceram o tempo, as regras, as certezas. Trazem no corpo o odor do mundo e exalam paz. Um olhar tão doce, tão distante...

Um gato atravessa a rua. Calmamente, como se não se importasse com a pressa dos outros, essa pressa que mata. O pipoqueiro passa, arrastando o cansaço. Sobrevive, não reclama mais e deixa para trás o cheiro de fome. As pombas alimentam-se com a vergonha jogada no lixo dos homens.

No jornal que o redemoinho de poeira traz, dançam as notícias esquecidas. Se saísse um jacaré do bueiro daria-lhe um farto e gordo naco da nossa sociedade impressa. Há uma vida que pulsa além das páginas, que urge e tantos deixam-na para amanhã. Sem pressa e sem tempo, ela surge, desenhada e encantadora.