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Deliciosa sobremesa



O que é grafenola? Semana passada pulverizei o ambiente de trabalho com a minha curiosidade. Li um texto, de um escritor português, que falava dessa "deliciosa sobremesa". Pergunta daqui, procura ali, e chegamos a um acordo ortográfico entre Portugal e Brasil. Grafenola é o mesmo que gramofone. 

Recuei até a minha infância e lembrei-me desse instrumento charmoso com aquela tuba retrô pode onde saía a melodia preferida da minha avó paterna: Tema de Lara, do filme Dr. Jivago. Entendi a metáfora tão bem empregada pelo escritor português! E olha que teve jornalista aqui achando mesmo que grafenola era um típico doce português. 

Essas coincidências são engraçadas. Falamos e não falamos a mesma língua. Às vezes não nos entendemos. Mas a minha curiosidade ainda rendeu mais. Alguém disse que gramofone e radiola são a mesma coisa. Então quis saber a diferença entre radiola e vitrola. Não se aflijam porque vitrola, radiola, toca-disco ou gira-disco (no português de Portugal) são a mesma coisa. 

Lembrei-me então dos toca-fitas. Alguém não sabe o que é? Como a tecnologia nos transforma rapidamente em primitivos da caverna! Com tablets nas mãos e acesso a ipods, os jovens de hoje devem achar que sou do tempo dos dinossauros. E máquina de datilografar. Será que existe datilograr no dicionário online? Ou essa palavra foi extinta. Vou digitar aqui para pesquisar ... 

Preciso contar que, um dia desses, alguém daqui jogou o Aurélio no lixo. Uma amiga achou, reclamou do absurdo com todos os "bah" e "tchê" nervosos do seu gauchês, mas quer doá-lo. Está em bom estado e guarda palavras antes da reforma ortográfica. Alguém quer? 

Será que procurar palavras pela ordem alfabética já está no caminho do esquecimento? Fico imaginando o futuro. Daqui a pouco será o próprio livro que lerá para nós desde, é claro, que você dê o comando de voz. Como? Já existe isso...?





Roubas meu coração


Tumblr
Quem és tu, 
que chegas e deixas-me uma flor?
Uma paixão vermelha.

Quem és tu,
que roubas-me as mãos e ofertas-me um olhar?
Uma promessa de amor.

Quem és tu,
que danças comigo um tango
e vais embora... 

com o meu coração?

(Rovênia Amorim - 15/08/2013)



Bom fim  de semana!

A vida é bela

Foto: Tumblr
... e preciosa demais. Pode não ser fácil e certamente imita a natureza em suas montanhas e depressões, mas podemos ser invencíveis. Admiro quem luta, quem não reclama diante das dificuldades. Segue, insiste, vence e coleciona histórias para orgulhar a si mesmo e a humanidade. 

Somos capazes de maravilhas, mas somos capazes também de horrores. Não sei o que acontece em Brasília. Desde a morte do índio Galdino em 1997, queimado enquanto dormia numa parada de ônibus da Asa Sul, o gatilho da crueldade mantém-se pronto para novos disparos. O horror repetiu-se novamente esta semana numa briga entre duas mulheres. Leiam aqui. Como a barbárie teve como palco uma quadra residencial em frente ao Colégio Marista de Ensino Médio, o diretor José Leão da Cunha Filho propôs uma reflexão sobre a violência. Abaixo reproduzo parte do texto tão bem escrito:


"Há uma onda de desvalorização da vida no planeta, seja dos homens, seja dos animais e das árvores. Parece que ferir é normal, até mesmo atear fogo numa pessoa, como ocorreu agora na Quadra em que o Maristão se situa. Alguns podem desejar tratar o caso como episódico, porém, o que se observa em todo o país é uma crescente escalada de atentado à vida, sobretudo de mendigos, que vez por outra são queimados vivos ou mortos nas ruas e praças.
(...) nossos alunos (...) estão em idade fértil para a reflexão, assim, costumam ser socialmente inquietos e, em geral, desfrutam de forte senso de humanidade. Eles querem viver de maneira plena, como nos convocou Jesus Cristo: 'Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância' (Jo 10, 10).

A vida é bela. É imperativo que cada um de nós aprenda a apreciá-la, tanto para si, quanto para os outros."


"Tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando."


Palavras ensaboadas

Arquivo pessoal
O trem aproxima-se, vagarosamente, e freia os pensamentos. Fecho o livro e olho pela janela o tempo das outras pessoas. O frio espanta a pressa lá fora. Uma história já foi escrita e lida. A outra, que vejo sumir pelo caminho, espera pelas palavras. Quanta história morre sem merecer uma página ... Mais tarde, aos rascunhos que acumulo, outro se juntará: 

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.  Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra  foi feita para dizer."  (Graciliano Ramos - entrevista concedida em 1948).

O que eu penso antes de deixar o trem? Se ele não tivesse escrito isso, não teria lido, não teria pensado que escrever requer tempo, paciência, releitura, primor, sabão e amor. O resto é leitura em excelência, já lavada anteriormente.