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A Jangada de Pedra de José Saramago. |
Olho para as ostras que crescem sobre os galhos fincados em tripé na vegetação do mangue. Nunca tinha visto aquilo que para aqueles três homens era uma banalidade. Demorou para chegarmos à Telinha. Ela estava à margem, dormindo. O barulho das vozes a despertou e curiosa pôs o focinho para fora d'água e respirou. Aproximou-se da nossa embarcação, mostrou-se e voltou mansamente para a margem.
Nem sabia que existe peixe-boi fora da Amazônia. Mas há essa outra espécie, ainda mais ameaçada de extinção. O peixe-boi marinho difere do amazônico porque consegue nadar do mar para o rio, onde a fêmea tem os seus filhotes. Existem apenas cerca de 500 como Telinha. Antes da consciência chegar ao lugarejo, esses mamíferos aquáticos eram caçados e sua carne vendida em açougues.
- Muita gente comia peixe-boi achando que era carne de boi. O gosto é muito parecido!
A explicação do guia causou-me um gosto de tristeza. Olhei para a margem onde Telinha dormia. Será que o guia já comera carne de peixe-boi? Não perguntei e tentei entreter-me a olhar os caranguejos que, ao entardecer, arriscavam-se a sair dos seus buracos nas margens do rio. (Rovênia Amorim)