O
PRÊMIO DARDOS, prestigiado e desejado no mundo dos blogs, reconhece o
mérito diário a cada blogueiro que com amor e dedicação, faz espalhar o
seu conhecimento e criatividade, tornando-o disponível a todos na web.
De acordo com as regras, devemos:
-exibir a imagem do selo no blog
-colocar o link do blog de quem se recebeu o prêmio
-escolher outros 5 blogs para receberem o SELO PRÊMIO DARDOS
-Avisar aos escolhidos.
Tive a honra de ser indicado pelo amigo Will, do blog Entrelinhas:
A palavra “off” persegue os jornalistas. Às vezes para se
contar uma boa história, ou relatar um fato que ninguém quer assumir,
conquistamos as fontes e seus “offs”. A gente aprende, a contragosto, a
respeitar. Uma vez descumpri o prometido, mas vocês vão entender. O momento era
raro e a informação única.
O ano era 2001 e entrei de penetra no apartamento da
Avenida Atlântica, de Oscar Niemeyer. Gravador ligado na bolsa, um bloquinho de
papel (naquela época não usávamos tablet e laptop) e uma caneta qualquer,
sentei no sofá ao lado do deputado que seria recebido pelo arquiteto. Estava
combinado que me passaria por uma assessora do político.
Antes de Niemeyer chegar, a passos lentos, e sentar-se
numa cadeira na nossa frente, tive tempo de me encantar com as curvas do Pão de
Açúcar, vista privilegiada da ampla janela do arquiteto. Nas paredes, alguns
croquis protegidos por vidros, num ambiente austero, em preto e branco.
Estava tudo correndo bem. Anotava cada palavra, nem
piscava de tão empolgada. Niemeyer é avesso a jornalistas e eu tinha a noção
exata da importância do momento e daquela reportagem que seria publicada no dia
seguinte.
Num instante qualquer, ele parou de falar, olhou de
soslaio para aquela pessoa miúda que não conseguiu passar despercebida:
- Quem é você?
Quanta coisa passa na nossa cabeça numa hora dessas.
Contava a verdade? Mentia? Quem me conhece, já sabe de antemão o que respondi:
- Sou jornalista e
vim a convite do deputado.
Ele pareceu contentar-se. Eu me senti, enfim,
aliviadíssima. Pronta, poderia fazer minhas perguntas. Comecei por desabar o
meu encanto mineiro por Brasília. Meus olhos devem ter brilhado porque
realmente sou apaixonada por essa cidade que resume ideais humanistas. Agradeci
pela qualidade de vida que ele e Lucio Costa nos deixaram. Ele escutou, só
escutou. Disse apenas que se entristecia de ver aqueles carros enfileirados ao
redor do Congresso Nacional. Segundo ele, uma das coisas mais feias em
Brasília.
Depois, comecei a trabalhar. Estava ali para arrancar uma
frase do arquiteto contra o governador Joaquim Roriz. Queria uma crítica sobre,
eu acho, a Ponte JK, obra faraônica. Saí de lá sem a frase. Astuto, ele fez o
contrário: um elogio ao governador que prometera concluir as obras do Eixo
Monumental de Brasília – a biblioteca e o museu na Praça da República.
Bom,
mas de qualquer jeito já tinha a matéria: a história dos carros enfileirados
nas proximidades do Congresso Nacional. Resultado de muitos carros, poucas
vagas. Num dos últimos instantes, ele me chamou para acompanhá-lo a um canto do
escritório. Retirou um livro da estante, perguntou meu nome, escreveu a
dedicatória e entregou-me. “Para Rovênia, certeza neste Oscar Niemeyer”.
Terminei
agora há pouco de relê-lo: “Minha Arquitetura – Oscar Niemeyer”, da Editora
Revan , edição de 2000. Nesse livro, ele descreve as suas principais obras em
Brasília e pelo mundo e revela seus sentimentos e sua integridade, passagens da
sua vida e de figuras históricas como Lucio Costa, Le Corbusier, Juscelino e
Marechal Lott(conto em outra
oportunidade, ok?)
Estava
toda feliz, já na despedida, quando ele calmamente ordena:
-
Só não autorizo que você publique nada que falamos aqui.
Ao
reler o livro que ele me presenteou, tenho certeza de que fiz absolutamente o
certo em não obedecer. Segue o trecho:
“(...)
Ali aprendi uma lição. Às vezes, é preciso dizer não. E, mesmo quando isso nos
traz prejuízos no momento, pode nos trazer benefício no futuro. Não fosse
aquele “não”, Capanema não teria se aproximado de mim, nem eu teria projetado
Pampulha e Brasília.”
(*)
Ganhei folga nesta sexta-feira. Até segunda-feira. Deixo vocês com um vídeo belíssimo sobre
Niemeyer: “A vida é um sopro”.
Ele traz o vinho tinto de
reserva e o queijo francês que ela mais gosta. Mas não há romantismo que
resista ao controle-remoto! Por que os homens gostam tanto de mudar de canal? Aquele
filme não parecia ótimo?
O amor dos homens pelo
controle-remoto foi o assunto das três amigas na pizzaria.
- Eu já desisti. Fico lá
bebendo o vinhozinho até ele se decidir. É o melhor para evitar discussão.
- Eu não consigo entender,
mesmo! Por que eles têm essa mania? São todos iguais?
- É inconsciente,
automático. Querem sempre ter o controle da situação.
E se não
fosse um sonho? E não era. Eu sabia muito bem disso. Tive dois ataques de medo.
Minha mãe já havia morrido. Nem esse consolo eu tinha. Morava sozinho e era
sozinho. O sujeito carrancudo arrancou-me de minhas conjecturas e me jogou
dentro de seu carro, que partiu com um barulho insuportável dentro dos meus
ouvidos. Só tive tempo de observar um cadáver ser carregado para o outro carro,
que partiu na frente.
Pensei que
estavam atuando em um filme qualquer: o mocinho morto e o vilão preso. Pensei
novamente e concordei comigo que não teria dado muita bilheteria. Estava
sozinho e era sozinho. Então pensei em morrer de novo. Era tudo real e, pelo
visto, eu era o vilão.
Chegamos.
Era um penitenciária. Nunca tinha visto uma por dentro. Era nojento. Tive
vontade de vomitar, mas só iria piorar o seu estado. Um homem, mais carrancudo
que aquele que me escoltava, olhou-me: primeiro para meus pés e depois para
meus olhos. Então estremeci. Alguma coisa estava errada. Era o segundo que agia
assim.
Porém,
desta vez, não olhei para os seus pés. Abaixei a cabeça e reparei nos meus.
Minha nossa! Não sei se cheguei a dizer isso,mas meus sapatos estavam
ensanguentados e sem cadarços. Foi quando me dei conta que também minhas roupas
estavam pingadas, aqui e ali, de sangue.
Não tinha
ainda acabado minhas conjecturas quando me levaram para uma cela ainda mais
nojenta. Então não hesitei: vomitei. Pude notar apenas alguns olhos sem donos
me observarem por todos os lados. Estremeci novamente. Eu era um assassino? Não
era possível. Acreditava em Deus e no Espírito Santo. Eu era um assassino...
Não. Eu não era um assassino.
Devia estar louco ou tendo um pesadelo. Dormi aquela noite ali, em meio à
sujeira e ao ser odor. Tive vontade de nunca abrir os olhos e dormir
eternamente. Ou então de abri-los e sentir o ar puro e fresco da manhã passada
e de atrasar constantemente os ponteiros para não chegarem nas dez horas e
começar tudo de novo.
A minha cabeça doía, quando
alguém entrou na cela e me enxotou para uma sala escura onde havia alguns
carrancudos que me olharam com veemência e medo. Alguém foi a um canto, puxou
uma espécie de gaveta e fez sinal para o carrancudo atrás de mim. Esse me
dirigiu ao encontro da gaveta e senti que minhas pernas desapareciam.
O cadáver tinha um sobretudo, um
cachecol xadrez em vermelho, preto e branco e as mãos agarradas ao pescoço. Um
dos carrancudos tirou-lhe as mãos em volta do pescoço e afroxou-lhe o cachecol:
o pescoço havia sido brutalmente afinado por um par de cadarços. Havia sangue
nos cantos da boca.
Fiquei horrorizado, mas calmo,
muito calmo... Não dava para acreditar, simplesmente não dava. Não mais tive
vontade de morrer. Já não tinha forças.
Agora passo os dias aqui,
refletindo, lembrando o dia de chuva, das crianças correndo com os braços
abertos. E, aqui, nem o barulho dos pingos me deixam ouvir. Vivo com um barulho
insuportável nos ouvidos. Imagino que logo cai mais um pingo e outro. Num instante são
centenas... aqui e ali.
Fim de tarde de domingo. Ventava. As primeiras florações da estação que chegava não resistiam à brutalidade da ventania e iam de encontro ao solo. E rolavam rua abaixo. Para eles, era dia de festa. Só não gritavam porque a força do vento comprimia-lhes os rostos e estagnava-lhes a voz. As caras amassadas mostravam o sorriso inocente e feliz.
Mulheres corriam a fechar janelas e a chamar os filhos para dentro. Um senhor forçava, com vigor, o chapéu sobre a cabeça. Escondia as mãos no sobretudo e as pontas de um cachecol xadrez em vermelho, preto e branco agitavam-se.
Os primeiros pingos começavam a cair. No jardim próximo, eles furavam a terra fofa com violência. E logo mais caía mais um, e depois mais outro e mais um. Num instante, já eram centenas. Poças se formavam aqui e ali. Alguns meninos chutavam a enxurrada para o desespero das mães, que se esgoelavam atrás das janelas semifechadas.
Manhã de oito de março de 1952. O dia era claro e fresco. A chuva da véspera apagara todo o odor da poeira e o ar era muito bem aceito por todas as narinas. Alguns pássaros arriscavam-se a sair por entre as folhagens e logo estavam saudando contentemente o dia sem sol. Por volta das dez horas, um carro com barulho insurpotável quebrava o encanto do dia. E pouco depois chegava um outro piscando luzes e com mais barulho.
Homens uniformizados, com cassetetes em mãos, examinavam tudo e faziam anotações numa aparente caderneta. Um deles, carrancudo, com um bigode que escondia os lábios e óculos escuros para não mostrar os olhos - sei lá por quê - se aproximou. Olhou para meus pés e depois para meus olhos. Eu, então, o olhei também. Primeiro para seus pés e depois para seus olhos. Era uma forma de retribuir-lhe o cumprimento. Talvez ele fosse de descendência oriental e tivesse vergonha dos olhos esmiuçados e, por isso, os óculos escuros naquela manhã sem sol.
Porém, ele tomou-me as mãos e meteu-me atrozes algemas. Confesso que hesitei em reagir. Não sabia se perguntava-lhe o que havia ou se morria mesmo, tal era o meu espanto. Mas o carrancudo de bigode, que escondia os lábios, mostrou-me os dentes de cavalo. Tive um ataque de medo e novamente pensei em morrer. Tranquilizei-me pouco tempo depois: devia estar sonhando. Em alguns filmes era assim, e então o cara acordava e ria tanto quanto se aliviava.
(... continua amanhã)
* Texto que escrevi no primeiro semestre de 1991, na disciplina Oficina de Texto I, ministrada por Climério de Souza Ferreira, Faculdade de Comunicação/UnB.
Na pressa esqueci o livro em casa. Fico devendo a foto
Resolvi revirar ontem uma caixa com livros guardados.
Estava à procura de um exemplar para contar uma história sobre “off”, mas isso
vai ficar para depois.Encontrei uma
raridade que simplesmente havia esquecido no tempo. Fiquei tão contente de
achá-la!
É um livro fino, coletânea de textos escritos
por calouros do primeiro semestre de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB).
Cada aluno da turma teve direito a dois textos. Eu fui tão privilegiada, como
pude esquecer isso... O texto que abre a coletânea é de minha autoria, aos 17
anos.
Ri
de mim mesma. Era um conto policial. Imagina, nessa época lia Agatha Christie e
Stephen King. Poderia ter vergonha ao relê-lo, mas não, achei até bem bonzinho.
Tirando erros de pontuação e o adjetivo “carrancudo” que repeti demais, a
história é bacaninha. Só é meio grande. Vou dividi-la em capítulos, como faz a
minha amiga R. Vieira, para vocês lerem a partir de segunda.
Mas
havia outras duas surpresas nesse livro. Eu, que vivo invejando quem escreve versos, não é
que tenho uma poesia publicada? Meu Deus, eu escrevi uma poesia? Juro, havia
apagado da mente, completamente. A última surpresa foi um texto escrito por uma
grande amiga daquela época, chamada Ana Cláudia Ilha. Perdi o contato. Ela
mudou-se para os Estados Unidos e fomos separadas pela vida. Mas naquele
semestre, de caloura, um dos textos que ela escolheu para publicar era uma descrição
minha. Fantástico ler e constatar como ela me via.
Saudades
daquela turma, daquele momento eternizado no livro que intitulamos Com fusão em confissões.Na contracapa, o comentário é de Carlos Chagas, nosso
professor de ética. Suas aulas eram no mínimo engraçadas. Era um andar pra lá e
pra cá, soltando baforadas. Naquela época, o professor não achava antiético
fumar em sala de aula. Escreveu que anos mais tarde muitos de nós já não
estaríamos escrevendo, outros se arrependeriam dos textos escritos, e nos
aconselhava a ser como ele: um eterno sonhador.
Os
textos foram escritos nas aulas de Oficina de Texto 1,do professor Climério Ferreira. Quem não
conhece? Climério Ferreira nasceu no Piauí e mudou-se para Brasília em 1962. É
poeta e da sua fase como cantor, surgiram parcerias com Fagner, Dominguinhos,
Nara Leão, Tim Maia. Climério é irmão dos também compositores Clodo e Clésio,
com várias composições de sucesso na nossa MPB.
Deixo com vocês um bom fim
de semana, versos de Climério e uma letra dele cantada por Dominguinhos: Riso
Cristalino.
Não existe coisa mais chata do que mãe perfeccionista. Mas o menino aos 10
anos tinha essa certeza. A sua mãe era a mais chata que poderia existir. Ela
era capaz de ler os livros paradidáticos da escola antes dele para depois ficar
perguntando, perguntando... Só para saber se ele tinha mesmo lido.
Mas essa história que vou contar não é novidade. Contei uma vez para um
amigo meu, jornalista mais velho, mas daqueles que conquistam a gente por um
nada, simplesmente por emanar uma energia doce, que nos acalma. Virei fã dele e
terá minha amizade eterna. Foi ele quem publicou essa história como crônica no
jornal.
Então, o menino tinha essa certeza. Cara fechada, debruçado sobre os
cadernos e livros para vencer o punhado de exercícios que a mãe mais chata do
mundo tinha deixado, antes de sair para o trabalho, para ele fazer. E não
adiantava fingir que tinha feito escrevendo qualquer coisa. Ela ia chegar,
corrigir um por um e, depois, explicar o que estava errado para ele refazer.Ela era mesmo infernal.
Nesse mesmo dia, à noitinha, ela chegou e pegou a direção do quarto do
menino:
- Você já acabou?
- Sim. Já fiz tudinho. Pode corrigir...
- Certo, certo, poderia ser mais completa essa resposta e... como assim? Em branco? Você
não explicou como surgiu o comércio na Idade Média?
- Não expliquei porque é muito fácil, né mãe! Lá na prova eu escrevo a resposta.
- Então me diga como era o comércio antigamente?
- Muito simples! Começou com
a troca de mercadorias nos burgos. Tipo assim: o cara tinha um quilo de feijão e
trocava por um ipod.
Nesses dias
de chuva forte, vi uma garotinha protegendo-se sob uma sombrinha vermelha com bolinhas brancas. Mochilas às costas, voltava da escola amuada, tentando não se encharcar. Fiquei admirando... compunha um cenário
harmonioso e alegre.
De repente,
a garotinha tirou as congas vermelhas e as meias brancas. Fechou a sombrinha e
abandonou a calçada. Preferiu abraçar a chuva, sorrir e seguir o caminho
chutando a enxurrada da rua.
Um cantinho de Natal na minha casa (foto: Rovênia Amorim)
O segredo
A menininha meiga, na inocência
dos seus oito anos, trancou a avó no quarto para contar um segredo:
- Vovó, a senhora promete
que não conta para a mamãe? Ela vai ficar muito triste. E não conta para a
minha irmã e nem para a Tatá e a Mamá (as duas primas)...
- Prometo, meu anjo. Não
conto de jeito nenhum.
- É que não estou mais
acreditando no Papai Noel e nas fadas...
A revelação
O menininho, filho único,
tem nove anos. Ele está sentado na escada do pátio da escola, pensativo, quando
um colega chega às gargalhadas.
- Você não vai acreditar!
- Não vou acreditar no quê?
- O Juca acredita no Papai
Noel!
- Ué, e o que tem isso? Eu
também acredito.
- ká-ká-ká – gargalha ainda
mais alto o menino que se acha o mais esperto do mundo, enquanto corre de
braços erguidos para chamar atenção das outras crianças.
- Vocês não vão acreditar!
O Pedrinho também acredita no Papai Noel!
Dá um sono danado
depois de “cachar o cureio”. Por isso, gosto sempre de tomar uma xícara de “cajuvira”
e sempre evito pôr muita “camberela” e “mantambu” no prato. Pesa na barriga, dá
mais sono ainda. Queria é, na verdade,
de não ter de “curimbar” tanto!
Você deve estar
imaginando que sou bem doida, não? Conheci hoje uma estudante de escola pública
de Bom Sucesso, cidade do interior de Minas Gerais. Bruna Clemente Gontijo, de
17 anos, tirou o segundo lugar num concurso nacional de redação. Ela tinha de
escrever sobre uma particularidade da sua cidade que tivesse a ver com o
Brasil.
Ela escolheu
falar de um assunto que descobrira recentemente: a existência de um dialeto
africano que sobreviveu no bairro de Ana Rosa, na periferia da cidade onde mora
e termina o ensino médio. É a Língua do Negro da Costa ou Língua da Tabatinga.
A estudante explicou que a sua cidade foi fundada por escravos que trabalham
numa área mineradora próxima.
Fascinada com a
riqueza cultural da sua cidade, ela defende que o dialeto seja reconhecido como
bem imaterial do Brasil. Justo, não?Ficou curioso? Nesse endereço aqui você encontra o
dicionário da Língua da Tabatinga, que mistura o português rural do Brasil-Colônia
a línguas de grupos Banto, principalmente do quimbundo e do umbundo, ainda faladas
em Angola.
A tradução
acima:
“Dá um sono danado depois de “almoçar”. Por isso,
gosto sempre de tomar uma xícara de “café” e sempre evito pôr muita “carne” e “mandioca”
no prato. Pesa na barriga, dá mais sono ainda. Queria, na verdade, não ter de “trabalhar”
tanto!
Uma é menina, iniciando a vida e com todo o tempo do
mundo. A outra vive à cata de mais tempo. Na aula de francês, leram um texto do
médico William Lowenstein – Ces dépendances qui nous gouvernent - que destaca o
vício pelo trabalho - “les workaholiques” . A palavra é um neologismo inventado
nos anos de 1990 pelo norte-americano Wayne Oates, que juntou os termos work +
alcoholic.
No meio das aulas, em meio a
todos os outros problemas psicológicos citados na lição, as duas revelaram os
seus. A mais nova, linda e com aparência de perfeita, contou do armário
hiperorganizado, com roupas separadas por cores. A aluna mais velha, bonita e
com aparência de resolvida, não resistiu:
- Mas isso não é um problema! É
uma qualidade!
A mais nova replicou:
- É um problema, sim, e não sou
cega diante dele. Ninguém pode mexer no meu armário. Eu sou capaz de perder um
tempão organizando-o e choro em pensar que alguém pode entrar e mexer. Minha mãe
já sabe e deixa meu quarto trancado.
Então, a outra aluna
revelou o seu problema:
- Ando tão apressada que não
enxergo sinais vermelhos, esqueço os vidros do carro abertos no estacionamento. É
que fico pensando em tudo que preciso fazer. Uma vez até esqueci onde tinha
estacionado o carro. As quadras residenciais em Brasília são tão parecidas, que
não sabia em qual deixei o carro. Sabia que era por ali, mas de salto alto, as
nuvens cinzas ameaçando despencar logo o temporal, atrasada para o próximo
compromisso, não tive dúvida. Liguei para um táxi. Expliquei que não estava bêbada,
nem drogada, mas que precisava da ajuda dele para achar o carro.
A turma toda riu, como se não
tivessem cada qual os seus. Até que outra aluna revelou outro problema:o vício pelo trabalho. Não consegue chegar
tarde e nem sair cedo. Leva trabalho para casa; no almoço, o assunto é o
trabalho. No Facebook, idem. Na visão de Lowenstein, os workalcoholics procuram admiração,
estima.“Mais ou menos, segundo os
testemunhos de amor recebidos durante a infância”.
Fui simplesmente atropelada nesse
feriado. Aquela lista preparada na véspera de tantas coisas pra fazer de nada
adiantou. Tive de desmarcar compromissos e adiar outros. Não consegui sair da
cama, impedida por uma dessas horas em que o corpo exige um “basta”.E ainda tive de ouvir a frase mortal do meu
marido:
- Ótimo! Só assim para você ficar
quieta!
Passei o feriado evitando abrir os
olhos para não ver o teto rodando, rodando, atrapalhando meus pensamentos. Só
no fim do dia, comecei a melhorar e, às 22h, consegui ver um filme na tevê.
Interessante, contava a relação de Martha Gellhorn, jornalista correspondente
de guerra, e de Ernest Hemingway, que todo mundo conhece.
Ficam como sugestões de presentes.
Neste Natal, vou ser prática. Darei livros para todos: de crianças a adultos. A
Face da Guerra, de Gellhorn, e Por quem o sinos dobram, de Hemingway, são
opções. A relação dos dois durou cinco
anos. Terminou, eu acho, quando o machismo do escritor deixou escapar que ela “se
fez” graças a ele. Ela, em entrevista anos mais tarde, amargurada pelos
horrores que presenciou, disse que sua vida não era um rodapé de livro.
Enfim, que tal ler os livros dos
dois para tirar as próprias conclusões? Dela, no filme, Hemingway comentou que
nunca havia conhecido uma mulher com tanta coragem. Dele, no filme, Gellhorn
disse que a pessoa que o escritor mais torturou foi ele mesmo.
Hoje, ainda meio tonta, saí de
casa para o trabalho. No caminho pensei nessa vida louca que a gente leva, sem
tempo para respirar e reparar nas coisas. Somos escravizados por nós mesmos. Não,
não quero essa vida de falta de tempo em 2013. Está na hora de colocar em
prática aquela outra frase do meu marido:
Ela era estudante de
mestrado em biologia, loura, bonita e inteligente. Vinha de Porto Alegre para
estudar na capital federal. Na terra natal ficou o namorado que conhecera havia
13 anos e com o qual ela se casaria anos mais tarde.
A menina do interior de
Minas, caloura na universidade e na vida, tornou-se a melhor amiga. A gaúcha
gostava da sinceridade da mineira. Todas as vezes que ela retocava a pintura do
cabelo, vinha sobressaltada à procura da adolescente de 18 anos:
- E aí? Ficou bom?
A mestranda sabia que a
menina contaria, com a naturalidade peculiar da pouca idade, a mais pura
verdade. Ainda que fosse aquela verdade que ela, no fundo, não quisesse ouvir.
Pois bem. Um dia a
mestranda revelou o seu mais íntimo segredo para a menina. Ela incorporava um
preto-velho e que não precisaria se assustar quando presenciasse o fenômeno.
Numa noite, após um
tremelique da amiga mais velha, ele veio. Rondou o apartamento onde as duas estudantes
moravam e olhou a menina assustada, enrolada num edredom azul florido, e pediu
um favor:
-Minha filhinha, você pode buscar no criado
mudo, ao lado da cama da sua amiga, um cigarro e o isqueiro?
- Onde mesmo?
- Está na gaveta do
criado-mudo, ao lado da cama onde a sua amiga dorme.
A mineirinha foi até o
local indicado e buscou a encomenda. Entregou-a ao preto-velho, que acendeu o vício
e se satisfez bufando a fumaça. Depois, olhou novamente, para a menina e
apontando para o relógio que ela trazia no braço, quis saber:
- Minha filhinha, você
pode me dizer quantas horas são?
A mineirinha estranhou a
pergunta, pensou uns instantes, daqueles impossíveis de medir, e devolveu uma
pergunta:
- Mas, como o senhor
conseguiu ver o local onde estavam o cigarro e o isqueiro e não consegue ver
quantas horas são no meu relógio? E por que o senhor quer saber as horas? Tem
hora para voltar?
Afundada
na preguiça sobre uma almofada, assisti, no sabadão, a uma entrevista no canal
das mulheres (GNT) sobre o esforço do Ronaldinho Fenômeno para emagrecer. Naquela
peleja, suor escorrendo enquanto corria trechos curtos e rápidos na areia da
praia, ele perguntou ao personal quantas calorias tem numa coxinha:
- ... de 300 a
350.
Sem
pensar, Ronaldinho respondeu, convencidíssimo:
-
Não vale a pena! E nem é tão gostosa assim!
Ri
sozinha e entendi perfeitamente a constatação do Fenômeno. Na contagem
regressiva para as férias, estou na luta para perder três quilos. Parece pouco,
mas não é fácil enxugar calorias.
Enquanto
pego pesado no aeróbico na academia fiquei lembrando da coxinha e fazendo as
contas: 40 minutos de escada rolante são apenas de 300 a 320 calorias queimadas.
Na esteira, com picos de velocidade, 7 quilômetros
consomem um pouco mais: 500 calorias.
Nessas horas, de suor pingando, você convencendo
mentalmente a seu corpo que ele aguenta, sim, mais um pouco, é que se chega ao óbvio:
muito melhor a saladinha, o biscoito de gergelin e a fruta. Dá até ânimo de
voltar no outro dia para a academia e malhar mais um monte! Vamos, hoje é
segunda-feira.
Fim de ano chegando e a
gente vai descobrindo, com gerúndio e tudo, como estamos ficando velhos
depressa demais, não? Jovem Guarda... Tudo bem, vá lá, não é da minha época,
mas como era da juventude dos meus pais, ouvia minha mãe cantarolar músicas da
Martinha, Vanusa, CellyCampello, Wanderléa, Roberto e Erasmo e Silvinha e quem mais?
Neste fim de 2012, a mostra
cultural do colégio das gêmeas, de oito anos, será sobre a Jovem Guarda e a
Semana de 22. É impressionante como as músicas daquela época embalam gostos
eternos. Elas já aprenderam a cantar os refrões e estão doidas para
experimentar os vestidinhos rodados de poá.
Tomo um banho de lua,
fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido
Era um biquíni de
bolinha amarelinha tão pequinininho
Mal cabia na Ana Maria
Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ave Maria, cheia de graça.
Ultimamente é o que tenho ouvido. E com pedido de bis:
- Mamãe, queriidaaa, você
pode gravar num CD pra gente cantar direitinho? Pode? Pode?
Para aliviar,os dois livrinhos
bacanas para a Semana de Arte Moderna. Uma, que adora o bicho de pelo macio,
vai ler O Mistério do Coelho Pensante, de Clarice Lispector. A outra já
descobriu que Monteiro Lobato fazia críticas a Anita Malfatti. Dizia que ela não
sabia pintar.
Tudo isso, em meio às
provas finais do 3º ano do ensino fundamental das meninas. Nesta sexta-feira, vêm
as duas piores: de matemática e a de inglês do cursinho de línguas.
No meio de toda essa
efervescência, há o anúncio do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa
(Pnaic). É triste pensar que nesse nosso Brasil, 15,2% das crianças que têm a
mesma idade das minhas filhas ainda não estão alfabetizadas: não sabem ler,
escrever e dominar as quatro operações básicas ao final do 3º ano, aos 8 anos
de idade.
Tudo isso faz refletir em
como a educação evoluiu para as crianças mais ricas, que podem estudar em colégios
particulares. Para os filhos da geração
Jovem Guarda, a alfabetização começava aos 7 anos, em cartilhas, método silábico.
Hoje, aos 8 anos, os netos da geração musical embalada por Roberto e Erasmo já
são donos de conhecimentos avançados e capazes de se comunicar numa segunda língua.
A educação pública no Brasil precisa avançar páginas e páginas!