Tenho poucas palavras. O que não serve de desculpas. Então posso contar que os tênis da menina eram pretos amarrados por cadarços, sem serem os da marca mais conhecida. Já gastos, com as laterais das solas bem brancas. De todo o certo capricho da mãe para a primeira apresentação. Ela usava jeans clareado pelas sucessivas lavadas. A camiseta era padrão, usada por toda a orquestra. No cabelo, novamente o carinho da mãe em forma de tiara com laço de renda comprada em feira.
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Imagem Internet |
Depois, atrás do palco, vi-a com as mãos trêmulas, embalando o instrumento como se fosse a boneca mais cara, que nunca nem sonhara ter. Imaginei-a na casa sem adornos da cidade pobre vizinha ao bairro mais nobre da capital. Infância cercada pela luta diária onde os sonhos mais íntimos são tempos perdidos. Perguntei-lhe o nome, a idade. Virou-se, olhou-me nos olhos e, sem sorrir, contou-me o segredo.