"A inconclusividade não é modéstia intelectual (...), mas uma estratégia de civilizada tolerância entre amigos. A conversa propriamente dita, e não suas conclusões finais, é que carrega a maior parte do significado." ( A virada, Stephen Greenblatt, pag.65)
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Na caixa de correio, uma carta. Jamais esperada, ela abriu-a ansiosamente. O envelope guardava poucas palavras, mas que valiam muito. Era a primeira vez que lia a letra dele.
O que estava escrito nas poucas linhas não lhe tocou a alma e seria esquecido no tempo. Havia uma fotografia em três por quatro, o brilho de profundos olhos verdes. Perdida entre as coisas que a vida lhe traria, a imagem restaria segura na lembrança.
Antes de despedir-se da antiga vida, ela arriscara. Eram colegas de faculdade, estudavam em salas vizinhas. Ela admirava-o, falaram-se poucas vezes, frases tímidas, mas o suficiente para iludir-lhe o coração. Um dia antes de partir, encheu-se de coragem e bateu à porta, interrompeu a aula, tirou-lhe a concentração:
- Vou partir amanhã, mas queria saber se teria alguma chance.
Ele olhou-a e parecia ter a resposta pronta.
Durante a viagem, enquanto a vegetação passava apressada pela janela, ela voltava-se ao dia anterior, recordava-se das imagens e das palavras daquela ousadia.
Agora, naquele instante, segurava nas mãos o destino desviado. Era o primeiro de tantos amores perdidos que lhe assombrariam.